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Contedo de   Anonymus Gourmet :: 

Queijo Limburger e Bolachinhas

por Anonymus Gourmet

26/03/2018 14:08     26/03/2018 14:08

No trabalho dos artistas em geral, e dos escritores em particular, o “invisível espírito do vinho”, para usar a elegante expressão de Shakespeare, é um mito. Charles Bukowski, por exemplo, que passou dos 70 anos escrevendo e bebendo em escala industrial, encerrava se no seu escritório, todas as noites, com um bloco de folhas de papel ofício e uma garrafa de Beaujolais (ou Juliènas, ou ou Brouilly, ou Fleurie — ele amava vinhos jovens, levemente refrescados). Pela manhã, sua empregada encontrava sempre na soleira da porta um envelope com um conto impecavelmente datilografado e uma garrafa vazia.


A polêmica sobre os efeitos encantadores ou devastadores do vinho (e do álcool em geral) no trabalho de um escritor é um tema em aberto. Gosto de lembrar um belo artigo de Gore Vidal — um dos nossos colaboradores mais assíduos na sempre lembrada revista Oitenta —, em que ele afirmava, com um toque de inflamada dramaticidade, que “o álcool matou Scott Fitzgerald aos 45 anos e impediu que Hemingway e Faulkner escrevessem qualquer coisa valiosa nos seus últimos anos”.


Mas, Gore Vidal evitou a tentação de engarrafar um dogma. Com o fascínio habitual, também se rendeu ao oposto. Nesse artigo da Oitenta ele reconhece que, mesmo para quem o consome em escala industrial, o álcool não é necessariamente o fim da atividade literária. Exemplificava com um homem que enchia páginas com a mesma disposição que esvaziava garrafas: Edmund Wilson. Perto dele, Bukowski era quase um abstêmio. Segundo Gore Vidal, Wilson escreveu mais e também bebeu mais do que, juntos, Fitzgerald, Hemingway e Faulkner, “as três estrelas despedaçadas”, na sua bela e amargurada definição.


Já disse aqui, como se fosse advogado de defesa, que, mesmo bebendo tanto assim, Edmund Wilson chegou perto dos 80 anos de idade em plena forma. Trabalhou e bebeu profissionalmente, em tempo integral, até o final. A dieta de Wilson era de arrepiar a geração saúde: entrava no Princeton Club e pedia seis martinis extra dry, a serem preparados e consumidos não em sequência, mas simultaneamente. Aos setenta e tantos anos, escreveu em seu diário, num sábado, 13 de agosto: “Bebi uma garrafa inteira de champagne, depois terminei um vinho de Porto. A seguir abri um ótimo tinto francês que consumi com queijo Limburger e bolachinhas. A longo prazo isto pode me fazer mal”.


O que Edmund Wilson temia: o queijo Limburger ou as bolachinhas?

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