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Contedo de   Anonymus Gourmet :: 

Dietas Draconianas e Ironia

por Anonymus Gourmet

22/02/2018 16:20     13/03/2018 13:35

Dura é a vida dos jóqueis. Escravizados pela balança, não podem se permitir as
consolações de copiosos suflês, exuberantes maioneses, molhos de sonho, fritadas
incontornáveis... Em Seabiscuit, filme de Gary Ross de 2003, Toby Maguire representa
bem o desalento de Red Pollard, um jóquei improvável: com 1,65m de altura, sendo
obrigado a não passar de 52 quilos, permitia-se apenas algumas ervilhas, meio bife e
uma fatia de batata. Ainda bem que o pequeno Seabiscuit o vingava: apesar de ser um
dos menores cavalos da cocheira, comportava-se como um gourmand, comendo o
dobro da ração. Red Pollard fora abandonado pela família, perdeu um olho em lutas de
boxe de quinta categoria e dormia numa cocheira. Para se distrair dessas desventuras,
lia grandes escritores, contava histórias aos colegas e conversava com cavalos. Pollard
só se sentiu fracassado uma vez, quando uma perna quebrada ameaçou não deixá-lo
montar Seabiscuit num páreo decisivo: “Esta é a derrota mais pungente”.


Seabiscuit é uma história de perdedores que tem a segunda chance. O dono do
cavalo, Charles Howard, um milionário vendedor de automóveis, era o maior de todos
os perdedores. Perdeu o filho num acidente de carro, a esposa que foi embora e o
entusiasmo pela vida. Foi salvo por Marcela, que adorava cavalos e ajudava Howard e
acreditar no inacreditável. A primeira escolha inacreditável foi Tom Smith, um vaqueiro
solitário, considerado meio maluco, que viu nas brumas da madrugada um pequeno
cavalo manco, de mau temperamento. Não se importou com as patas, nem com a fúria
do potro, mas sim com o olhar penetrante, dizendo que era “um cavalo com alma”. Para
fazer essa “alma” ganhar corridas, chamou o jóquei desacreditado Red Pollard. Desse
coquetel espantoso, foi feita a equipe que levou Seabiscuit à glória. É um filme que
emociona, com cenas de ação impressionantes que dão ao espectador a sensação
de estar em plena pista, entre os cavalos. Mas a história também encanta pelo tom.
Não é a fábula doce da revanche bem sucedida: no filme, a segunda chance é uma
crônica de dolorosas provações. Proprietário, treinador, jóquei e cavalo se toleram, se
compreendem, se perdoam mutuamente dos seus fracassos e defeitos. Como diz
Pollard, “se curam mutuamente”. Ou, como diz Tom Smith: “Um pequeno defeito não
pode acabar com uma vida”. Charles Howard resume a ópera: “Aqui estamos nós, um
cavalo pequeno demais, montado por um jóquei grande demais, com um treinador velho
demais e eu, um proprietário que é idiota demais para não ver tudo isso”. Ou seja, além
de dietas draconianas, fé inquebrantável, dotes visionários, compreensão mútua, etc., a
glória também é feita de uma certa autoironia. Não se pode levar tudo muito a sério

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