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Conteúdo de   Anonymus Gourmet :: 

As Ilhas Verdejantes da Imaginação

por Anonymus Gourmet

24/01/2018 15:55     08/02/2018 16:05

Viagem é um mito narrativo, dizia Federico Fellini, que garantia: “Todos os meus
filmes narram viagens. Viagens feitas ou viagens sonhadas.” Infelizmente, confessa
Anonymus Gourmet, depois de ver e rever todos os filmes de Fellini, não lembro de
viagens. Mas o próprio Fellini, na única vez em que conversei com ele me disse:
“Eu invento as minhas recordações! Não distingo mais as reais. Minha mãe às
vezes me diz: ‘Mas você nunca fugiu com o circo!’ ‘Você nunca esteve no colégio
interno!’ A mim parece que tudo aconteceu de verdade! Para mim só é verdadeira
aquela Rimini que sonhei, que inventei, que repensei, impregnada de saudade.” Não
por acaso no final da vida gravou um longo depoimento intitulado “O Grande Mentiroso”
— por sugestão dele.
Orson Welles, se testemunhasse essa sinceridade, emprestaria uma de suas frases
em defesa de Federico: “Nós, mentirosos profissionais, esperamos servir à verdade.”
Ironicamente, Welles deixou inacabado o filme É tudo verdade.
Fellini tinha orgulho em participar dessa comunidade dos mentirosos profissionais.
Tanto que, “na verdade, não sou propriamente um mentiroso” – ponderou com modéstia.
– “Apenas tenho a imaginação fértil”.
Imaginação fértil ou realidade? É uma pergunta dos biógrafos de Byron sobre as
mirabolantes aventuras românticas de Lord Byron em Veneza. Mas, ele deixou escapar
uma pista para a resposta, dizendo que em Veneza estavam “as ilhas verdejantes da
imaginação”.
As ilhas verdejantes talvez mudassem se Byron tivesse sobrevivido para percorrer
a pequena e luxuriante Ilha da Madeira, que consegue o prodígio de preservar uma
floresta de Laurissilva da era Terciária, considerada uma relíquia natural pela Unesco.
O segundo prodígio é que, hoje, a floresta convive em harmonia com autoestradas
extraordinárias que furam rochedos, levando a hotéis de luxo, lojas de sonho e pequenos
restaurantes inesquecíveis.
“Virgem, selvagem e disponível ao mundo”, – é uma definição adequada para essa
ilha portuguesa da África do Norte, embora originalmente Giacomo Casanova tivesse
usado a frase, numa idealização da meia idade, a propósito de uma vizinha adolescente
de olhos verdes. Como diz um verso de Florbela Espanca, transformado em fado na voz
de Mariza, a mulata moçambicana de cabelo loiro, “Só quem embala no peito / Dores
amargas e secretas / É que em noites de luar / Pode entender os poetas...”

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