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Contedo de   Anonymus :: 

A conversa fiada da boa mesa

24/08/2017 15:07     24/08/2017 15:07

Você sabe o que são botanitas? Ou uma brunoise? Ou um concassé? São termos complicados e inacessíveis à maioria das pessoas, que muitos restaurantes adoram apresentar em seus cardápios. É uma espécie de exercício de autoridade de certos chefs que, assim, fazem o consumidor se sentir um perfeito ignorante.

Em São Paulo, onde a complicação dos cardápios chega ao paroxismo, os jornais começam a ridicularizar esse esnobismo. Como se fosse uma vergonha não saber que botanitas é o nome dado aos petiscos no México. Eu mesmo só fiquei sabendo o que era porque fui ao dicionário. Concassé, em francês, não passa de uma mistura de vegetais cortados, geralmente tomates.

Brunoise, palavra francesa que consta em muitos cardápios, e a maioria dos fregueses engole em seco, com medo de pedir a tradução ao garçom, é simples: brunoise é o corte em cubos diminutos. Ou seja: apesar do nome empolado, brunoise é um picadinho de legumes cortados em cubos muito pequenos.

A boa mesa, na verdade, se presta a muita conversa fiada. Quase sempre é para enganar ou impressionar fregueses desavisados. Foi o caso de uma das maiores figuras históricas da França, Talleyrand, recolhendo os cacos do orgulho francês, depois da derrota de Napoleão em Waterloo, tentando ampliar o apoio à coroa.

No século 19, Talleyrand, o príncipe dos diplomatas, que dominava a mágica da boa mesa, conseguiu o surpreendente apoio da oposição ao rei Luís 18, num jantar com o terrível Fouché, o homem rude e vulgar que comandou o terror na Revolução Francesa.

Talleyrand serviu-lhe um vinho extraordinário e, Fouché, sem compreender o tesouro que tinha na taça, preparou-se para beber de um trago, como aguardente.

Talleyrand interrompeu-o, segurando seu braço: “Este vinho deve ser, antes de tudo, saboreado com o olhar. Observe o matiz púrpura!”

Fouché suspirou: “E depois?”
“Depois, o olfato: sinta o suave aroma de frutas silvestres...”
Fouché exasperou-se: “Tudo bem... E depois?”
Talleyrand continuou imperturbável: “Deixe a taça na mesa, sem tocá-la e em silêncio.”
Fouché chegou ao limite da ansiedade: “E agora?!”.
Talleyrand, solene, completou: “Agora, vamos conversar sobre o vinho.”

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